Há algo de muito errado em não sabermos o que queremos...
ainda mais errado em sabermos e não admitirmos...
ainda mais errado em sabermos, não admitirmos e querermos fazer tudo para mentir a nós próprios e negar que o que queremos é de facto o que queremos.
sábado, 29 de setembro de 2012
segunda-feira, 4 de junho de 2012
Típico
Quando olhas só para ti, não consegues ver os outros.
Óbvio.
Mas depois admiras-te quando toda a gente deixa de te ver a ti...
Estás lá, mas acaba por ser indiferente para nós...
E a tua invisibilidade não vem do facto de termos começado a olhar para os nossos umbigos...
Não... nós continuamos a olhar uns para os outros... nos olhos... como sempre fizemos...
Simplesmente fazemos de ti uma mancha no espaço...
Ignoramos.
Porque estamos cansados de ser ignorados.
Porque tu só vens quando precisas.
Só dás quando queres algo em troca, e isso não é dar.
És tão...
Típico.
Óbvio.
Mas depois admiras-te quando toda a gente deixa de te ver a ti...
Estás lá, mas acaba por ser indiferente para nós...
E a tua invisibilidade não vem do facto de termos começado a olhar para os nossos umbigos...
Não... nós continuamos a olhar uns para os outros... nos olhos... como sempre fizemos...
Simplesmente fazemos de ti uma mancha no espaço...
Ignoramos.
Porque estamos cansados de ser ignorados.
Porque tu só vens quando precisas.
Só dás quando queres algo em troca, e isso não é dar.
És tão...
Típico.
quinta-feira, 17 de maio de 2012
O quarto
Não entres...
Mas se o fizeres...fá-lo devagarinho.
Sem que eu perceba. Para que não saiba da tua presença, mas me sinta segura sem perceber bem porquê...
O ar muda quando estás por perto. O céu deixa de ser azul.
Laranja... Fica laranja... como um pôr do sol intenso. E cheira a sal.
Cheira sempre muito a sal.
E não me toques. Respira só.
E não fales. Deixa o coração bater devagarinho.
Deixa a madeira ceder debaixo dos teus pés a cada passo num barulho suave, quase imperceptível.
E deita-te...
Não me toques. Não me fales.
Deita-te.
Cheira a sal. Cheira sempre muito a sal quando estás por perto.
Como se estivesse dentro de uma onda. Só que sem medo que ela quebre.
Uma onda que é sempre uma onda.
Suspira quando encostares a cabeça à almofada.
Mas não puxes os cobertores.
Detesto que puxes os cobertores.
Não me toques.
Detesto que me toques.
Não me fales.
Destesto quando me falas.
Respira só. Deixa o coração bater devagarinho. Suspira.
Cheira a sal. Cheira sempre muito a sal quando estás por perto.
...Tenho saudades do cheiro a sal
... nunca mais cheirou a sal...
Mas se o fizeres...fá-lo devagarinho.
Sem que eu perceba. Para que não saiba da tua presença, mas me sinta segura sem perceber bem porquê...
O ar muda quando estás por perto. O céu deixa de ser azul.
Laranja... Fica laranja... como um pôr do sol intenso. E cheira a sal.
Cheira sempre muito a sal.
E não me toques. Respira só.
E não fales. Deixa o coração bater devagarinho.
Deixa a madeira ceder debaixo dos teus pés a cada passo num barulho suave, quase imperceptível.
E deita-te...
Não me toques. Não me fales.
Deita-te.
Cheira a sal. Cheira sempre muito a sal quando estás por perto.
Como se estivesse dentro de uma onda. Só que sem medo que ela quebre.
Uma onda que é sempre uma onda.
Suspira quando encostares a cabeça à almofada.
Mas não puxes os cobertores.
Detesto que puxes os cobertores.
Não me toques.
Detesto que me toques.
Não me fales.
Destesto quando me falas.
Respira só. Deixa o coração bater devagarinho. Suspira.
Cheira a sal. Cheira sempre muito a sal quando estás por perto.
...Tenho saudades do cheiro a sal
... nunca mais cheirou a sal...
Fingir acreditar
Sim. Queria ser ela.
Queria mesmo.
Porque ela não sabe.
A ignorância é pacífica... silenciosa... Como um enorme oceano.
A inteligência é nauseante...atira-nos para a frente e para trás como um furacão. Envolve-nos no seu interior gelado, arrepia-nos e imobiliza-nos no terror. O terror de ter os olhos bem abertos e não conseguir fecha-los. O terror de não conseguir esquecer, de não conseguir ignorar.
Ah...a ignorância... é tão carinhosa... como uma brisa no pico do verão...envolve-nos de forma ternurenta, deita-nos numa cama de rede e embala-nos ao som de uma canção familiar. É quente...
A inteligência não é quente. É angulosa. Rígida. E magoa...
Por isso sim...
Queria ser ela.
Queria mesmo.
Porque ela não sabe.
Eu sei. Tudo. Até o que não queria saber.
Mas aí está... a inteligência grita aos nossos ouvidos...mesmo que não queiramos ouvir. E eu não queria ouvir. Não queria saber. Queria achar o que ela acha. Queria pintar o meu próprio cenário em ti. Queria reinventar-te.
Sim. Queria ser ela.
Queria mesmo.
Achar que conseguia mudar-te. Fazer-te acreditar que não tem de ser assim. Que não fazes de propósito. Que é uma fase. Ignorar os sinais. Acreditar. Ou acreditar que acredito.
Sim. Queria.
Queria mesmo.
Mas não dá para esquecer. Não dá para acreditar. Não dá para fingir acreditar que acredito.
Não dá...
Sou como o algodão...não engano...
Oh mas se pudesse...
Sim...
Queria ser ela...
Queria mesmo...
Porque ela não sabe...
Ela não te conhece como eu.
Queria mesmo.
Porque ela não sabe.
A ignorância é pacífica... silenciosa... Como um enorme oceano.
A inteligência é nauseante...atira-nos para a frente e para trás como um furacão. Envolve-nos no seu interior gelado, arrepia-nos e imobiliza-nos no terror. O terror de ter os olhos bem abertos e não conseguir fecha-los. O terror de não conseguir esquecer, de não conseguir ignorar.
Ah...a ignorância... é tão carinhosa... como uma brisa no pico do verão...envolve-nos de forma ternurenta, deita-nos numa cama de rede e embala-nos ao som de uma canção familiar. É quente...
A inteligência não é quente. É angulosa. Rígida. E magoa...
Por isso sim...
Queria ser ela.
Queria mesmo.
Porque ela não sabe.
Eu sei. Tudo. Até o que não queria saber.
Mas aí está... a inteligência grita aos nossos ouvidos...mesmo que não queiramos ouvir. E eu não queria ouvir. Não queria saber. Queria achar o que ela acha. Queria pintar o meu próprio cenário em ti. Queria reinventar-te.
Sim. Queria ser ela.
Queria mesmo.
Achar que conseguia mudar-te. Fazer-te acreditar que não tem de ser assim. Que não fazes de propósito. Que é uma fase. Ignorar os sinais. Acreditar. Ou acreditar que acredito.
Sim. Queria.
Queria mesmo.
Mas não dá para esquecer. Não dá para acreditar. Não dá para fingir acreditar que acredito.
Não dá...
Sou como o algodão...não engano...
Oh mas se pudesse...
Sim...
Queria ser ela...
Queria mesmo...
Porque ela não sabe...
Ela não te conhece como eu.
terça-feira, 15 de maio de 2012
Tu não
Prefiro estar com loucos do que com falsos. Mas tu não.
Prefiro continuar a arriscar mesmo quando sei que vou sair magoada.
Mas tu não.
Prefiro continuar a lutar por algo que pode ser impossível.
Mas tu não.
Prefiro chorar e gritar do que ficar calada.
Mas tu não.
Prefiro continuar a ter a fama e a não ter o proveito do que passar 5 segundos a provar que estás errado.
Mas tu não.
Prefiro assumir o que faço e não mentir.
Mas tu não.
Prefiro admitir que já errei e continuarei a errar.
Mas tu não.
Prefiro olhar no espelho e ter orgulho do que vejo do que defender aquilo em que não acredito.
Mas tu não.
Prefiro continuar a olhar nos olhos das pessoas porque não tenho nada a esconder.
Mas tu não.
Prefiro continuar a cair...e a levantar...e a cair...e a levantar...
Mas tu não.
Prefiro que continues a pensar o que queres de mim, a fazer os comentários que precisas de fazer sobre mim. Prefiro que continues a virar tudo contra mim, a conspirar, a falar, a criticar, a gozar...
Prefiro que o faças na minha frente, mas não faz o teu género. Não faz mal...
Prefiro ignorar-te...
Prefiro, porque sei que não faz diferença. Arriscar faz-me sair magoada, mas também me faz estar mais perto de ser feliz. Sim...
Um dia vou ser feliz.
Mas tu não.
segunda-feira, 14 de maio de 2012
Talheres
A pá ama a vassoura. A esfregona ama o balde.
E a colher?
A colher ama o garfo, mas o garfo ama a faca e não a vai deixar.
As colheres sonham ser facas, porque elas têm aquelas pequenas serrinhas. As facas amam os garfos porque eles têm aquelas 4 dentes perfeitamente simétricos.
Mas e as colheres? As colheres têm superfícies côncavas e convexas... Têm milhares de formas e tamanhos, são usadas como medição, para agitar, mexer ou provar. Com elas comemos sopas, cremes, sobremesas e tudo aquilo que la em cima consigamos equilibrar. Com as facas não podemos comer sopa, nem cremes, nem fazer medições.
Mas o problema não são as facas, nem as colheres.
Os garfos...os garfos é que vão ser sempre garfos e vão sempre gostar de facas.
As colheres...as colheres não se podem tornar garfos nem facas, porque são colheres.
As colheres estão sozinhas...
Os martelos de picar a carne também estão sozinhos...
Deviam ficar juntos...
E a colher?
A colher ama o garfo, mas o garfo ama a faca e não a vai deixar.
As colheres sonham ser facas, porque elas têm aquelas pequenas serrinhas. As facas amam os garfos porque eles têm aquelas 4 dentes perfeitamente simétricos.
Mas e as colheres? As colheres têm superfícies côncavas e convexas... Têm milhares de formas e tamanhos, são usadas como medição, para agitar, mexer ou provar. Com elas comemos sopas, cremes, sobremesas e tudo aquilo que la em cima consigamos equilibrar. Com as facas não podemos comer sopa, nem cremes, nem fazer medições.
Mas o problema não são as facas, nem as colheres.
Os garfos...os garfos é que vão ser sempre garfos e vão sempre gostar de facas.
As colheres...as colheres não se podem tornar garfos nem facas, porque são colheres.
As colheres estão sozinhas...
Os martelos de picar a carne também estão sozinhos...
Deviam ficar juntos...
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Last words
They said...
"I know not what tomorrow will bring..." (Pessoa)
"I know" (Mill)
"This is good" (Kant)
"I'm still alive" (Calígula)
"Everything is an illusion." (Hari)
"Okay, okay...I'm going. Wait just a minute" (Papa Alexandre VI)
"Applaud, friends, the comedy is over." (Beethoven)
"Go away, last words are for fools who never said enough." (Marx)
"I know not what tomorrow will bring..." (Pessoa)
"I know" (Mill)
"This is good" (Kant)
"I'm still alive" (Calígula)
"Everything is an illusion." (Hari)
"Nothing but death." (Austen)
"Give me coffee, I want to write!" (Bilac)
"Okay, okay...I'm going. Wait just a minute" (Papa Alexandre VI)
"Applaud, friends, the comedy is over." (Beethoven)
"Go away, last words are for fools who never said enough." (Marx)
domingo, 8 de abril de 2012
Reencontros
Engasguei-me.
Literalmente.
Se tivesse apostado com o tempo tinha perdido.
Bem-feita.
Milhares de pensamentos electrizantes passaram em reboliço pela minha mente
e tudo o que consegui foi...
Sorrir...
O meu cérebro entrou em choque total deixou de exercer as funções e fez com
que os meus joelhos falhassem momentaneamente.
Que raio.
Que vontade incontrolável de rir.
Como é possível?
Estás tão diferente…
Se tivesse apostado com o tempo tinha perdido.
Se tivesse apostado contigo...
Se tivesse apostado em ti…
Suspiro.
Literalmente.
Se tivesse apostado com o tempo tinha perdido.
Bem-feita.
Milhares de pensamentos electrizantes passaram em reboliço pela minha mente
e tudo o que consegui foi...
Sorrir...
O meu cérebro entrou em choque total deixou de exercer as funções e fez com
que os meus joelhos falhassem momentaneamente.
Que raio.
Que vontade incontrolável de rir.
Como é possível?
Estás tão diferente…
Se tivesse apostado com o tempo tinha perdido.
Se tivesse apostado contigo...
Se tivesse apostado em ti…
Suspiro.
quinta-feira, 13 de outubro de 2011
Planos
Sou obsecada por eles. Por planos.
Tenho o A e o B. Tenho o C só para previnir se ambos falharem.
Tenho o D porque pode vir a dar muito jeito.
E o E porque é bom se tudo até ali falhar. Falhar...requer um plano F porque o E não é infalível.
Mas no meio de todos esses planos que prevêm todas as possíveis falhas e os possíveis sucessos, no meio do entrelaçar de todos esses fios arrepiantes que parecem não ter fim, apareceu o Plano G.
Um plano que não era um plano. Que nunca foi um plano...
...era a unica coisa em que eu conseguia pensar...
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Quero-te...
Por alguma razão achas que é tudo mais fácil se simplesmente voltar ao que era... Só que não te lembras que na altura...não era nada fácil.
Quando olhas para trás agora sentes um arrepio...e sentes saudades de coisas que odiaste só porque te impedem de as voltares a viver. É como se o passado ganhasse um estranho domínio sobre ti...e o teu corpo ficasse mais leve e fosse de facto reconfortante a ideia de ficar ali a viver tudo de novo...as coisas boas e as más...tudo de novo mas tudo da mesma forma, com a mesma intensidade...
Por isso sim, quando me deparei de novo com o edifício que retirou tanto de mim...e olhei de novo a sua fachada gasta e os seus portões pesados...tive saudades.
quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Perspectivas
Ela olhou para mim desconfiada quando lhe disse que não tinha com que se preocupar. Suspirou e deixou-se caiu na minha cama como se de repente todos os membros do seu corpo tivessem cedido à todas as forças da gravidade.
- Não entendo...
- É simples tu..
-Não. Isso eu entendo. O que eu não entendo é como é que tu simplificas as coisas. Como é que te recusas a ver as coisas por um lado negativo? Como é que consegues ver sempre uma coisa boa na pior das situações?
- Fácil. O que é que adianta ver as coisas pelo lado negativo? O lado negativo...é uma merda. A única coisa que ele faz é dar-te uma prespectiva. Nem sequer é uma realidade. Porque a realidade é uma junção de factos. Todos os factos podem ser observados de duas perspectivas, então porque é que eu tenho de escolher a pior? É a mesma coisa que te mandarem escolher entre comeres um bombom ou comeres um pedaço de vidro, é obvio que escolhes o bombom.
- Pois...
- Então...porque é que continuas a pegar no pedaço de vidro?
- É incrivel como tu não fazendo sentido nenhum...fazes todo o sentido.
Encolhi os ombros.
Sim...é certo que há lado negativos. Em 1000 coisas que correm mal, há 1 que corre bem. Mas as 1000 coisas que correm mal tornam-nos predispostos para aceitar essa 1 que correu bem com o dobro da felicidade e fazem-nos dar-lhe valor.
Não podemos ser feitos apenas de uma perspectiva. Porque isso tornar-nos-ia lineares, o que nós também não somos.
Então...pesa os dois lados, e tira partido das situações. No final do dia...aceita com agrado o bombom e deixa o pedaço de vidro no ecoponto...porque até os pedaços de vidro podem ter lados positivos ;)
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Nunca soubeste
Dizes que não queres tentar porque tens medo.
Dizes que não queres tentar porque dói.
Dizes que não queres tentar porque calculas.
Dizes que não queres tentar porque ouviste dizer que não vale a pena.
Dizes que não queres tentar porque tiveste más experiências.
Dizes que não queres tentar porque sentes que não vai dar.
Dizes que não queres tentar porque hoje a nossa música não deu na rádio.
Dizes que não queres tentar porque tens um feeling.
Dizes que não queres tentar porque tens um pressentimento.
Dizes que não queres tentar porque dá o jogo da selecção.
Dizes que não queres tentar porque te dói a barriga.
Dizes que não queres tentar e dás mais 20 desculpas...
Mas no fundo não sabes o que é tentar...
Nunca soubeste...
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
roller coaster

A vida é um loop...
Então como é que uma palavra faz todo o mundo parar de girar?
A vida é um loop...
É por isso que a minha cabeça dói?
Sinto-me dormente...
A vida é um loop...
Desce...Sobe...Cabeça para baixo...Estômago às Voltas...Respira...
A vida é um loop...
Suores Frios...Balançar...Dor nas Costas...Empurrão contra a cadeira...
A vida é um loop...
Pára...Arranca...Desce...Deixa-te ir...Cai...Sobe...Expira...Inspira...
A vida é um loop...
Nublado...Cores...Escuro...Desce...Sobe...Estômago...Música...
A vida é um loop...
Amo-te.
Parou. Respiro fundo...
sábado, 27 de agosto de 2011
Cento e Quarenta e Seis
Eça de Queirós dizia: "A distância actua sobre a emoção exactamente como actua sobre o som (...) É sempre em ambas o idêntico e tão racional princípio das ondulações, que vão decrescendo à medida que se afastam do seu centro, até que docemente se imobilizam e morrem: se elas traziam um som que vinha vibrando - o som cala quando elas param"
E se não for bem assim?
E se existir uma emoção que torna um pequeno som de uma nota numa sinfonia que invade todos os nossos sentidos?
E se a distância não diminuir a intensidade do som mas for, isso sim, capaz de a aumentar a níveis inatingíveis?
E se a distância for apenas um número?
E se...
Fazes-me falta.
Andaria. Cento e Quarenta e Seis.
Para ti.
Lisboa
Habituei-me a achar que o ruído dos carros a alta velocidade era música...
Habituei-me a achar curta a viagem de 45 minutos para o centro...
Habituei-me a abraça-los como se os fosse ver todos os dias...
Habituei-me a dormir no quarto de 20.000 pessoas diferentes...
Habituei-me a não achar estranho dizer "caminhe até ao marquês de pombal"...
Habituei-me a perder o metro...
A beber café no starkbucks...
A passear no bairro alto...
A dar direcções aos turistas...
A dançar no meio da rua...
A cantar no meio do Mac...
A tirar 1001 fotografias de tudo e de coisa nenhuma...
A ter saudades antes de partir...
A ter de andar 2 km para poder chegar à pousada...
A não ter medo...
Mas pior...
Habituei-me a ti.
Lisboa...Lisboa é amor aos pedacinhos...
Habituei-me a achar curta a viagem de 45 minutos para o centro...
Habituei-me a abraça-los como se os fosse ver todos os dias...
Habituei-me a dormir no quarto de 20.000 pessoas diferentes...
Habituei-me a não achar estranho dizer "caminhe até ao marquês de pombal"...
Habituei-me a perder o metro...
A beber café no starkbucks...
A passear no bairro alto...
A dar direcções aos turistas...
A dançar no meio da rua...
A cantar no meio do Mac...
A tirar 1001 fotografias de tudo e de coisa nenhuma...
A ter saudades antes de partir...
A ter de andar 2 km para poder chegar à pousada...
A não ter medo...
Mas pior...
Habituei-me a ti.
Lisboa...Lisboa é amor aos pedacinhos...
terça-feira, 23 de agosto de 2011
Reencontros
O céu negro pairava assustadoramente sobre a minha cabeça ameaçando um temporal como há muito não se via...
O vento gelava-me os dedos que lentamente perdiam a capacidade de se mexer com a delicadeza e sensibilidade que lhes eram características. Os meus cabelos serpenteavam suspensos e chicoteavam os meus ombros protegidos pelo fiel casaco de malha preto.
Ninguém diria que era verão olhando para aquele céu.
Mas não importava...na realidade nada importava porque aguardava por este momento há muito tempo.
Os reencontros começam sempre assim.
Alguém espera alguém. Depois correm uma para a outra sem se importarem com mais nada.
E durante horas as palavras saem dos nossos lábios como rios impossibilitados de correr há muito tempo, e quando damos conta... silêncio.
Deixamo-nos cair no banco de jardim (no mesmo de sempre) e respiramos.
"Como é que conseguimos dar uma reviravolta à nossa vida em apenas 336 horas?"
E a resposta não vem como por magia, como acontece nos filmes, nem há um gigantesco sinal luminoso a dar-nos indicações sobre o que devemos fazer...
Por isso deixamo-nos ficar ali...com o tempo a passar...
Porque às vezes a vida resume-se a isto:
Eu, tu e um banco de jardim...
O vento gelava-me os dedos que lentamente perdiam a capacidade de se mexer com a delicadeza e sensibilidade que lhes eram características. Os meus cabelos serpenteavam suspensos e chicoteavam os meus ombros protegidos pelo fiel casaco de malha preto.
Ninguém diria que era verão olhando para aquele céu.
Mas não importava...na realidade nada importava porque aguardava por este momento há muito tempo.
Os reencontros começam sempre assim.
Alguém espera alguém. Depois correm uma para a outra sem se importarem com mais nada.
E durante horas as palavras saem dos nossos lábios como rios impossibilitados de correr há muito tempo, e quando damos conta... silêncio.
Deixamo-nos cair no banco de jardim (no mesmo de sempre) e respiramos.
"Como é que conseguimos dar uma reviravolta à nossa vida em apenas 336 horas?"
E a resposta não vem como por magia, como acontece nos filmes, nem há um gigantesco sinal luminoso a dar-nos indicações sobre o que devemos fazer...
Por isso deixamo-nos ficar ali...com o tempo a passar...
Porque às vezes a vida resume-se a isto:
Eu, tu e um banco de jardim...
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
3600 segundos

Comecei a escrever naquele papel branco A4 tudo aquilo que pensava que sabia sobre o mundo, enchi-o de letras, de sonhos, de promessas e no final...enrolei-o e fiz do lixo o meu "cesto". Às quintas feiras torno-me jogadora de basquetebol profissional não sabiam?
Mas ultimamente tenho enrolado muito papeis com promessas, tenho feito do lixo o meu "cesto", mas por muitos pontos que marque o mundo ganha sempre, sem nem sequer encestar.
Hoje vi-o com uma pedra no peito e rios nos olhos. E enquanto as palavras nos fugiam, tentávamos correr atrás delas, mas não conseguimos. Será que o mundo ganha sempre? Será que temos que ser sempre personagens secundárias na nossa própria vida?
Hoje ela correu para mim com sede de ódio nos olhos e um sorriso maléfico na cara de menina. Perdoo-lhe a impaciência e o conformismo, porque fui eu mesma que o exigi, mas não a posso impedir de se banhar nas correntes de acrimónia em que se envolve profundamente. Sim, há dias em que eu própria me queria afundar nessas águas turvas, mas não acho que me iria sentir melhor.
Hoje vi-o a fixar o mesmo ponto vezes sem conta, a passar por mim sem me ver, a ignorar o mundo à sua volta porque lhe tiraram a última esperança que tinha. Tenho a certeza, embora não o conheça à muito tempo, que se lhe perguntasse ele me diria que preferia ser atingido por um piano atirado de um décimo andar do que sentir aquela dor asfixiante da qual era impossível encontrar alívio. Dói ouvir que nunca vai acontecer.
Hoje ela atirou-me um olhar gélido que me parou o coração. Sim...já faz parte da rotina, mas não deixa de doer apenas porque é repetitivo...acho que até estranharia se não levasse aquele olhar para a primeira aula do dia. Kant fizeste o teu melhor, mas a intenção já não importa. Irei morrer durante segundos todos os dias até morrer para sempre.
Hoje vi-o a cravar as letras na capa do caderno. Um dia que tinha começado bem tinha-se revelado na maior mentira que alguma vez enfrentou, e não podia simplesmente ignorar, era-lhe impossível passar por cima disto, ainda mais por baixo, então, enquanto o vi-a atirar-se de cabeça para o meio daquela escuridão...engoli em seco. Um dia...vemo-nos do outro lado.
Hoje ela escondeu-se nos meus braços a chorar compulsivamente. Será o fim um novo início? Ou acabou tudo por aqui? Terá isto algum sentido? E quando dizemos que ultrapassamos, teremos realmente ultrapassado? Ou estamos apenas a encher a nossa caixinha de Pandora um pouco mais até nos libertarmos finalmente?
Hoje vi-o, hoje ela, hoje vi-o, hoje ela, hoje vi-o, hoje ela...até que ele chegou. E as nuvens afastaram-se para o Sol libertar uma raio ofuscante. E o meu coração recomeçou a bater, o sorriso voltou à minha cara, a escuridão escondeu-se numa esquina longínqua. Gostava de ter esse poder que tu tens, esse de aquecer corações e de libertar. Dei-lhe a mão e apertei-a com muita força. Agora sim...agora podíamos voltar atrás e ajuda-lo a ele, a ela, a ele, a ela, a ele, a ela. E o mundo rendia-se a cada passo nosso.
Porque hoje encestamos.
Porque hoje, finalmente, ganhámos.
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Tipo de Collants e a porta
Todas as tuas esperanças acabam protagonizadas num banco de pedra vazio. Desces a rua e o vento acaricia-te os cabelos, nestes momentos pensas como tudo está em perfeita sintonia, como parece uma cena de um filme. Pensas ainda que ao virar da esquina ele vai lá estar, de rosa na mão (característica opcional), à tua espera. Sempre à tua espera.
Mas ao dobrares a esquina os teus olhos alcançam apenas o vazio da rua e pensas como a tua vida não é um filme, como nada está à tua espera a não ser o senhor do condomínio a queixar-se de que não fechaste a porta quando saíste de manhã.
Então entras em casa na esperança de que alguém te tenha deixado uma mensagem no atendedor de chamadas, mas ninguém o fez a não ser o senhor do condomínio a lembrar-te para não te esqueceres de fechar a porta quando saíres de manhã.
Deixas-te cair na cama num último suspiro e olhas para o janela, ainda aberta, a pensar como quando eras nova sonhavas mudar o mundo, mas isso não aconteceu, porque a tua vida não é um filme.
E quando finalmente te levantas, com os olhos húmidos mesmo prontos a rebentar num diluvio porque o dia tinha corrido mal, a campainha toca e o teu coração entra numa corrida acelerada consigo mesmo.
Corres para a porta, escorregando no tapete do hall de entrada, e abres a porta com um tremendo sorriso. Este, que é tão cheio de esperança, em milésimas de segundo acaba por se desvanecer. Aparentemente o príncipe encantado não sabe a tua morada, mas o senhor do condomínio sabe e veio dizer-te para que não te esqueças de fechar a porta sempre que abandonas o edifício porque é um pequeno gesto para o bem de todos.
Respondes com educação mas ardes por dentro. Quando fechas a porta deixas-te escorregar na parede até estares sentada no chão. Não existe nenhum tipo de collants e espada brilhante, ou se existe provavelmente deixou-se enganar pelo bruxa do segundo esquerdo.
Arrastas-te para o sofá com a única coisa que ainda está dentro do prazo – um iogurte – no teu frigorífico e ligas a televisão na esperança de que o dia ainda possa melhorar. Consegues apanhar um filme qualquer em horário nobre e sabes a tortura que é ver a vida dos outros a correr bem mas este sentimento masoquista aquece-te a alma por segundos e pensas mesmo que talvez – talvez! – o tipo de collants tenha ficado preso no elevador e te vá tocar à campainha brevemente.
Mas o filme acaba – acaba sempre! – e és obrigada a enfrentar de novo a realidade. Não adianta pores o novo DVD que compraste, não adianta iludires-te com outra história de encantar com um final feliz. E o teu estado deprimente atinge o auge quando te deitas no sofá como quem perde todas as forças e ficas a ver o Discovery Channel sobre as novas abelhas assassinas. Dás por ti a rezar que as suas pequenas asas consigam aguentar a viagem de África até ao teu apartamento para pôr fim ao teu sofrimento. E depois levantas-te tentando afastar o pensamento suicida da tua pobre cabeça. Pensas na estupidez que estás a fazer e para acabar – ou adiar – estes pensamentos idiotas resolves ir deitar-te. Convences-te que é do cansaço e amanhã tudo parecerá melhor.
Mas a manhã nasce e o despertador acorda-te com o seu som irritante e tu imploras que o relógio ande para trás, mas ele recusa-se. São muito snobes estes relógios hoje em dia!
Quando estás pronta para levantares âncora para mais um dia duro de trabalhos em cima de trabalhos há uma folha cuidadosamente dobrada debaixo da porta. Os teus olhos não acreditam no que vêm...baixas-te e pegas nela...quando a abres...
Não se esqueça de fechar a porta! É para segurança de todos!
O presidente do Condomínio
Acabas por amachucar a folha e deita-la por cima do ombro, fechas a porta atrás de ti com força. Não há noites de sono que nos valham nestes casos!
Desces as escadas, possuida pela raiva porque o elevador deixou de funcionar e caminhas até ao carro com a cabeça a ferver.
E de repente...
“ A PORTA!”
corres desenfreadamente para trás só para não teres de ouvir mais um comentário sarcástico por cima de um dia infernal.
Colocas a mão no puxador e olhas para cima.
- Uau...
Mas ao dobrares a esquina os teus olhos alcançam apenas o vazio da rua e pensas como a tua vida não é um filme, como nada está à tua espera a não ser o senhor do condomínio a queixar-se de que não fechaste a porta quando saíste de manhã.
Então entras em casa na esperança de que alguém te tenha deixado uma mensagem no atendedor de chamadas, mas ninguém o fez a não ser o senhor do condomínio a lembrar-te para não te esqueceres de fechar a porta quando saíres de manhã.
Deixas-te cair na cama num último suspiro e olhas para o janela, ainda aberta, a pensar como quando eras nova sonhavas mudar o mundo, mas isso não aconteceu, porque a tua vida não é um filme.
E quando finalmente te levantas, com os olhos húmidos mesmo prontos a rebentar num diluvio porque o dia tinha corrido mal, a campainha toca e o teu coração entra numa corrida acelerada consigo mesmo.
Corres para a porta, escorregando no tapete do hall de entrada, e abres a porta com um tremendo sorriso. Este, que é tão cheio de esperança, em milésimas de segundo acaba por se desvanecer. Aparentemente o príncipe encantado não sabe a tua morada, mas o senhor do condomínio sabe e veio dizer-te para que não te esqueças de fechar a porta sempre que abandonas o edifício porque é um pequeno gesto para o bem de todos.
Respondes com educação mas ardes por dentro. Quando fechas a porta deixas-te escorregar na parede até estares sentada no chão. Não existe nenhum tipo de collants e espada brilhante, ou se existe provavelmente deixou-se enganar pelo bruxa do segundo esquerdo.
Arrastas-te para o sofá com a única coisa que ainda está dentro do prazo – um iogurte – no teu frigorífico e ligas a televisão na esperança de que o dia ainda possa melhorar. Consegues apanhar um filme qualquer em horário nobre e sabes a tortura que é ver a vida dos outros a correr bem mas este sentimento masoquista aquece-te a alma por segundos e pensas mesmo que talvez – talvez! – o tipo de collants tenha ficado preso no elevador e te vá tocar à campainha brevemente.
Mas o filme acaba – acaba sempre! – e és obrigada a enfrentar de novo a realidade. Não adianta pores o novo DVD que compraste, não adianta iludires-te com outra história de encantar com um final feliz. E o teu estado deprimente atinge o auge quando te deitas no sofá como quem perde todas as forças e ficas a ver o Discovery Channel sobre as novas abelhas assassinas. Dás por ti a rezar que as suas pequenas asas consigam aguentar a viagem de África até ao teu apartamento para pôr fim ao teu sofrimento. E depois levantas-te tentando afastar o pensamento suicida da tua pobre cabeça. Pensas na estupidez que estás a fazer e para acabar – ou adiar – estes pensamentos idiotas resolves ir deitar-te. Convences-te que é do cansaço e amanhã tudo parecerá melhor.
Mas a manhã nasce e o despertador acorda-te com o seu som irritante e tu imploras que o relógio ande para trás, mas ele recusa-se. São muito snobes estes relógios hoje em dia!
Quando estás pronta para levantares âncora para mais um dia duro de trabalhos em cima de trabalhos há uma folha cuidadosamente dobrada debaixo da porta. Os teus olhos não acreditam no que vêm...baixas-te e pegas nela...quando a abres...
Não se esqueça de fechar a porta! É para segurança de todos!
O presidente do Condomínio
Acabas por amachucar a folha e deita-la por cima do ombro, fechas a porta atrás de ti com força. Não há noites de sono que nos valham nestes casos!
Desces as escadas, possuida pela raiva porque o elevador deixou de funcionar e caminhas até ao carro com a cabeça a ferver.
E de repente...
“ A PORTA!”
corres desenfreadamente para trás só para não teres de ouvir mais um comentário sarcástico por cima de um dia infernal.
Colocas a mão no puxador e olhas para cima.
- Uau...
O tipo de collants encontrara o caminho para casa...
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Maps*
Imaginei um barco ao longe, de madeira, como o Pérola Negra dos Piratas das Caraíbas, mas restaurado e de velas restauradas. Imaginei-nos vestidas, naquele faz de conta, com roupas que mais parecem trapos e vestígios de batalhas emocionantes. Também imaginei mais duas pessoas que não interessam porque não é delas que vim falar.
Uma vez disseram-me que tinha algum jeito para as palavras e eu achei engraçado porque na verdade isto a que chamam jeito para as palavras é mais jeito para o coração.
Mas voltemos ao barco: o dia está agradável, alguns tímidos raios de sol aquecem-nos as costas constantemente marcadas pelo vento forte próprio daquela praia. E nós estamos ali, prontas a içar ancora e a desfraldar as velas. Prontas para ir em busca do conhecimento que aqui é escasso e não serve para alimentar a nossa sede.
Andámos à deriva nas ondas da vida, fomos apanhadas por tempestades e dilúvios de água salgada, mas estranhamente morna, como se o céu chorasse sobre nós. Ultrapassámos, na verdade, ultrapassamos sempre. E nesses dias, em que parece que o céu nunca se vai tornar azul novamente, corríamos para o convés e gritávamos o mais alto que podíamos. Deixávamos tudo sair de dentro de nós, deixávamos que a chuva nos libertasse da prisão, deixávamos que uma erupção explodisse dentro de nós. E depois, deixávamos- nos ficar deitadas a olhar o céu, ocasionalmente traçado uma um raio de luz, e ficávamos em silêncio. Só assim, a ouvir a chuva, a esperar que ela lavasse o que restava de nós, a esperar que talvez ela e o tempo se juntassem e fizessem a dor passar mais depressa. E estranhamente, tudo passava. Umas vezes mais depressa que outras, mas passava sempre. Coincidência? Queríamos pensar que sim, porque assustava-nos a ideia de não ser. Mas sabíamos que sempre o céu escurecia, o grande dilúvio se aproximava.
Mas em oposição a esses dias havia aqueles como o de hoje. Em que o sol acariciava a nossa pele e aquecia-nos daquela maneira tão particular que ele tem de o fazer. Aqueles em que nos apetecia rir sem parar e rebolar no chão. Aqueles em que dizíamos coisas estúpidas, aqueles em que lembrávamos parvoíces, aqueles em que nos sentíamos bem. Engraçado que esses dias sempre me pareceram mais curtos, talvez porque eram os que realmente importavam.
Foi isso que decidimos quando nos sentamos à beira mar da nossa última paragem. Era um porto. Um porto seguro onde o nosso barco tinha vindo dar ao cais depois de mais uma tempestade. Era um sítio um tanto ou quanto extraordinário, de aspecto antigo, de entradas grandiosas e salões frios mas encantadores. A praia ia-se afastando à medida que entravamos naquele novo mundo. Acabámos por ficar. Acabámos por fazer amizade com pessoas novas e até que nem estamos a desgostar deste novo porto.
Sabemos porém, que nem tudo dura para sempre. Também sabemos que o mais provável é só ficarmos aqui três anos, antes de nos fartarmos e partirmos de novo para outra aventura. Também sabemos que esse tempo vai passar a voar, porque passa sempre e que no final, vamos desejar voltar a trás e viver tudo de novo. Vamos chamar a este sítio casa, mas também vamos ter de novo a sede de conhecimento. Aqui, também chove. Também corremos e também gritamos. Aqui, ainda somos nós, ainda somos amigas e ainda sabemos que podemos confiar uma na outra.
Trocámos os farrapos e as espadas por calças de ganga e livros, mas as cicatrizes de guerra ficaram. Essas não se podem trocar, nem apagar, nem sequer tornar menos vivas na memória, porque essas ficam sempre, duram sempre, atormentam-nos para sempre, mas à medida que o tempo passa e a chuva cai elas vão-se tornando mais suportáveis e a dada altura conseguimos olhar para elas e esboçar um sorriso.
E esta é aquela altura em que tu perguntas o que aconteceu ao barco e à praia. A praia deu lugar a um parque, mas no fundo ainda vive perto de nós, mesmo à saída da nossa nova casa. O cheiro a sal ainda é perceptível por baixo da areia molhada. E o barco? Esse parou dentro de nós. Está num recanto do nosso coração à espera que o tempo passe e que as chuvas caiam, espera que três anos passem. Bem amarrado com nós fortes de marinheiro, espera-nos a nós.
E nós? Nós pegamos nos livros e vamos a correr, não para o convés mas para uma sala de aula, porque a campainha já tocou e vamos ter aquela stora que nos assusta particularmente. E no caminho desejamos ver aquela pessoa que apesar de trazer tempestades e nevoeiros também nos dá uns raios de Sol quando sorri. Somos masoquistas dessa maneira, mas faz parte de nós. Despedimo-nos rapidamente com um beijinho terno na bochecha e navegamos para outras ilhas, não muito distantes.
Ainda somos nós. E vamos sempre ser...
(dedicado a Catarina Tinoco)
Uma vez disseram-me que tinha algum jeito para as palavras e eu achei engraçado porque na verdade isto a que chamam jeito para as palavras é mais jeito para o coração.
Mas voltemos ao barco: o dia está agradável, alguns tímidos raios de sol aquecem-nos as costas constantemente marcadas pelo vento forte próprio daquela praia. E nós estamos ali, prontas a içar ancora e a desfraldar as velas. Prontas para ir em busca do conhecimento que aqui é escasso e não serve para alimentar a nossa sede.
Andámos à deriva nas ondas da vida, fomos apanhadas por tempestades e dilúvios de água salgada, mas estranhamente morna, como se o céu chorasse sobre nós. Ultrapassámos, na verdade, ultrapassamos sempre. E nesses dias, em que parece que o céu nunca se vai tornar azul novamente, corríamos para o convés e gritávamos o mais alto que podíamos. Deixávamos tudo sair de dentro de nós, deixávamos que a chuva nos libertasse da prisão, deixávamos que uma erupção explodisse dentro de nós. E depois, deixávamos- nos ficar deitadas a olhar o céu, ocasionalmente traçado uma um raio de luz, e ficávamos em silêncio. Só assim, a ouvir a chuva, a esperar que ela lavasse o que restava de nós, a esperar que talvez ela e o tempo se juntassem e fizessem a dor passar mais depressa. E estranhamente, tudo passava. Umas vezes mais depressa que outras, mas passava sempre. Coincidência? Queríamos pensar que sim, porque assustava-nos a ideia de não ser. Mas sabíamos que sempre o céu escurecia, o grande dilúvio se aproximava.
Mas em oposição a esses dias havia aqueles como o de hoje. Em que o sol acariciava a nossa pele e aquecia-nos daquela maneira tão particular que ele tem de o fazer. Aqueles em que nos apetecia rir sem parar e rebolar no chão. Aqueles em que dizíamos coisas estúpidas, aqueles em que lembrávamos parvoíces, aqueles em que nos sentíamos bem. Engraçado que esses dias sempre me pareceram mais curtos, talvez porque eram os que realmente importavam.
Foi isso que decidimos quando nos sentamos à beira mar da nossa última paragem. Era um porto. Um porto seguro onde o nosso barco tinha vindo dar ao cais depois de mais uma tempestade. Era um sítio um tanto ou quanto extraordinário, de aspecto antigo, de entradas grandiosas e salões frios mas encantadores. A praia ia-se afastando à medida que entravamos naquele novo mundo. Acabámos por ficar. Acabámos por fazer amizade com pessoas novas e até que nem estamos a desgostar deste novo porto.
Sabemos porém, que nem tudo dura para sempre. Também sabemos que o mais provável é só ficarmos aqui três anos, antes de nos fartarmos e partirmos de novo para outra aventura. Também sabemos que esse tempo vai passar a voar, porque passa sempre e que no final, vamos desejar voltar a trás e viver tudo de novo. Vamos chamar a este sítio casa, mas também vamos ter de novo a sede de conhecimento. Aqui, também chove. Também corremos e também gritamos. Aqui, ainda somos nós, ainda somos amigas e ainda sabemos que podemos confiar uma na outra.
Trocámos os farrapos e as espadas por calças de ganga e livros, mas as cicatrizes de guerra ficaram. Essas não se podem trocar, nem apagar, nem sequer tornar menos vivas na memória, porque essas ficam sempre, duram sempre, atormentam-nos para sempre, mas à medida que o tempo passa e a chuva cai elas vão-se tornando mais suportáveis e a dada altura conseguimos olhar para elas e esboçar um sorriso.
E esta é aquela altura em que tu perguntas o que aconteceu ao barco e à praia. A praia deu lugar a um parque, mas no fundo ainda vive perto de nós, mesmo à saída da nossa nova casa. O cheiro a sal ainda é perceptível por baixo da areia molhada. E o barco? Esse parou dentro de nós. Está num recanto do nosso coração à espera que o tempo passe e que as chuvas caiam, espera que três anos passem. Bem amarrado com nós fortes de marinheiro, espera-nos a nós.
E nós? Nós pegamos nos livros e vamos a correr, não para o convés mas para uma sala de aula, porque a campainha já tocou e vamos ter aquela stora que nos assusta particularmente. E no caminho desejamos ver aquela pessoa que apesar de trazer tempestades e nevoeiros também nos dá uns raios de Sol quando sorri. Somos masoquistas dessa maneira, mas faz parte de nós. Despedimo-nos rapidamente com um beijinho terno na bochecha e navegamos para outras ilhas, não muito distantes.
Ainda somos nós. E vamos sempre ser...
(dedicado a Catarina Tinoco)
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